Questoes comentadas/Historia e Geografia

Questao comentada gratuita

Questão comentada sobre Feminicídio, raça e território no Piauí

Enunciado, alternativas e comentario aberto para indexacao, revisao e conexao com aulas e materiais relevantes.

FGV2025Policia Civil do Estado do PiauiDelegado de Policia Civil

Enunciado

Leia a pesquisa a seguir sobre os casos de feminicídio no estado do Piauí durante a pandemia de COVID-19. Observando o recorte racial e a faixa etária da vítima de feminicídio em 2020, nota-se que mais de 80% eram negras, 32,2% tinham entre 20 e 29 anos e a idade média da vítima é 37 anos. Um elemento que se fez notar é a presença das mulheres negras vítimas de feminicídio em todas as faixas etárias, em contraste com as não negras. A partir da fase de distanciamento social, é possível observar comportamentos distintos nos feminicídios, considerando os casos da capital e do interior. Na capital, a maior incidência proporcional ocorreu na fase mais restritiva do distanciamento social (50%), enquanto no interior, o aumento da incidência se deu durante a flexibilização do distanciamento social (56%). Observando o tipo de instrumento utilizado para o assassinato e o recorte racial da vítima identificamos que, entre as mulheres negras, houve uma maior variação de instrumentos, em comparação com as mulheres não negras. Quanto à classificação racial, o estudo revelou que aproximadamente 82% dos autores eram negros. A residência foi o local preponderante do feminicídio em 2020, representando aproximadamente 74% dos casos registrados, tanto na capital (83,3%), quando no interior (72%). Adaptado de ALBUQUERQUE, Rossana e João Marcelo Aguiar. “Espaço da Casa, Cenário da Morte: Uma Abordagem Interseccional sobre os Feminicídios no Estado do Piauí no Contexto da Pandemia”. Revista Latino-Americana de Geografia e Gênero, v. 12, n. 2. Com base na leitura do trecho, assinale a opção que apresenta corretamente a interpretação dos dados sobre feminicídio no estado do Piauí.

Alternativas

  1. A.
    O pertencimento ao gênero masculino dos autores dos crimes indica a existência de uma uniformidade em seus comportamentos machistas, de modo que a dimensão de gênero se revela o fator principal para explicar o fenômeno.
  2. B.
    A diferença temporal entre capital e interior, com maior incidência na fase restritiva na capital e durante a flexibilização no interior, indica que as dinâmicas do feminicídio variam conforme contexto social e territorial.
  3. C.
    A predominância do feminicídio no ambiente residencial indica tratar-se de um fenômeno essencialmente doméstico, relacionado sobretudo a dinâmicas interpessoais de caráter afetivo-relacional, em detrimento de fatores estruturais.
  4. D.
    A preponderância de autores e vítimas afrodescendentes evidencia que o problema possui dimensão racial específica desse grupo social, devendo ser compreendido como manifestação de racismo.
  5. E.
    A variação do instrumento utilizado indica diferenças no modo de perpetrar a violência, mostrando que os corpos de mulheres afrodescendentes são mais violados e resistentes à dor.

Gabarito: alternativa correta destacada.

Comentario

Gabarito: B. A alternativa B está correta. Os percentuais do estudo mostram comportamentos temporais distintos entre capital e interior durante as fases de restrição e flexibilização, o que sustenta uma leitura contextual e territorial, sem reduzir o fenômeno a uma única causa.

Análise das alternativas:

A) Incorreta. O gênero é central, mas os dados também revelam dimensões raciais, etárias, sociais e territoriais incompatíveis com explicação uniforme.

B) Correta. Reproduz diretamente a diferença temporal observada e extrai dela conclusão prudente sobre variação conforme contexto social e territorial.

C) Incorreta. A predominância residencial não elimina fatores estruturais; a análise interseccional justamente recusa essa redução ao âmbito afetivo.

D) Incorreta. A presença majoritária de pessoas negras exige análise racial, mas não autoriza classificar todo o fenômeno apenas como manifestação de racismo.

E) Incorreta. A variação de instrumentos não permite inferir maior resistência à dor; essa afirmação é estigmatizante e não deriva dos dados.

Fontes de conteúdo: Albuquerque e Aguiar, artigo-fonte da Revista Latino-Americana de Geografia e Gênero; prova e gabarito FGV.