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Questão comentada sobre Limites da Constituição estadual na criação de foro por prerrogativa de função

Enunciado, alternativas e comentario aberto para indexacao, revisao e conexao com aulas e materiais relevantes.

FGV2024ENAM 2024.1 - Exame Nacional da Magistratura - Prova Tipo 1Magistratura

Enunciado

A Constituição do Estado Z conferiu aos reitores das universidades públicas estaduais o foro por prerrogativa de função, ficando a cargo do Tribunal de Justiça a competência para processar e julgar originariamente os crimes comuns praticados pelas referidas autoridades. Diante do exposto e à luz da ordem constitucional e da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, é correto afirmar que a r eferida norma é

Alternativas

  1. A.
    constitucional, pois, em razão do princípio federativo, os Estados têm competência para conferir, desde que previstos na respectiva Constituição estadual, foro por prerrogativa de função a autoridades que não guardam semelhança com as q ue o detém na esfera federal.
  2. B.
    constitucional, pois o foro por prerrogativa de função consubstancia uma garantia constitucional relativa ao exercício da função pública e uma necessidade de proteção de algumas autoridades para o exercício imparcial e ise nto de suas atribuições.
  3. C.
    constitucional, pois, em razão do princípio federativo, os Estados têm competência para conferir, mesmo que previstos em legislação infraconstitucional estadual, foro por prerrogativa de função a autoridades que não guardam sem elhança com as que o detém na esfera federal.
  4. D.
    inconstitucional, pois não pode o ente estadual, de forma discricionária, estender o foro por prerrogativa de função à cargos diversos daqueles abarcados pelo legislador federal, sob pena de violação às reg ras de reprodução automática e obrigatória da Constituição da República.
  5. E.
    inconstitucional, pois o foro por prerrogativa de função é uma garantia prevista para os servidores públicos ou agentes políticos da Administração Pública Direta, e universidades fazem parte da Administração Pública indireta, por serem autarquias públicas.

Gabarito: alternativa correta destacada.

Comentario

Correta: D. A norma da Constituição do Estado Z é inconstitucional. Segundo a jurisprudência do STF, os Estados não podem criar, de modo discricionário, hipóteses de foro por prerrogativa de função para autoridades sem correspondência ou simetria com o modelo previsto na Constituição Federal. O foro especial é exceção ao princípio republicano e ao juiz natural, razão pela qual sua ampliação por Constituição estadual deve observar limites constitucionais estritos. Reitores de universidades públicas estaduais não estão entre as autoridades para as quais a Constituição Federal prevê foro por prerrogativa de função em modelo de reprodução obrigatória, de modo que a extensão feita pelo Estado viola a ordem constitucional.

Por que as demais estão erradas:

A) Errada. O princípio federativo não autoriza os Estados a conferirem foro por prerrogativa de função a quaisquer autoridades sem semelhança com as previstas na Constituição Federal. A autonomia estadual encontra limites nas normas de observância obrigatória e no modelo constitucional federal.

B) Errada. Embora o foro por prerrogativa seja justificado pela proteção do exercício de certas funções públicas, ele não é uma autorização ampla para proteger qualquer autoridade. Trata-se de exceção constitucional, de interpretação restritiva, e não pode ser ampliada livremente pelo constituinte estadual.

C) Errada. Além de não ser possível criar foro especial para autoridades sem simetria com a Constituição Federal, menos ainda seria admissível fazê-lo por legislação infraconstitucional estadual. A competência originária dos tribunais deve ter assento constitucional e respeitar os limites da Constituição da República.

D) Correta. O ente estadual não pode estender discricionariamente o foro por prerrogativa de função a cargos diversos daqueles contemplados pelo modelo constitucional federal, sob pena de afronta às normas de reprodução obrigatória, ao juiz natural e ao caráter excepcional do foro especial.

E) Errada. A inconstitucionalidade não decorre do fato de universidades públicas integrarem a Administração indireta. O problema central é a criação indevida de foro especial para reitores sem respaldo no modelo constitucional federal, e não a natureza jurídica autárquica da universidade.

Base legal

Constituição Federal, art. 25, caput, e art. 125, § 1º: os Estados organizam sua Justiça observados os princípios da Constituição da República, e a competência dos Tribunais de Justiça deve ser definida na Constituição estadual, respeitados os limites constitucionais. Jurisprudência do STF: o foro por prerrogativa de função é exceção de interpretação restritiva e as Constituições estaduais não podem ampliar livremente hipóteses de competência originária sem correspondência com o modelo federal, em observância às normas de reprodução obrigatória e ao princípio do juiz natural.