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Questão comentada sobre Direitos Reais - Posse e Propriedade

Enunciado, alternativas e comentario aberto para indexacao, revisao e conexao com aulas e materiais relevantes.

FGV2018XXV Exame de Ordem Unificado

Enunciado

Jonas trabalha como caseiro da casa de praia da família Magalhães, exercendo ainda a função de cuidador da matriarca Lena, já com 95 anos. Dez dias após o falecimento de Lena, Jonas tem seu contrato de trabalho extinto pelos herdeiros. Contudo, ele permanece morando na casa, apesar de não manter qualquer outra relação jurídica com os herdeiros, que também já não frequentam mais o imóvel e permanecem incomunicáveis. Jonas decidiu, por sua própria conta, fazer diversas modificações na casa: alterou a pintura, cobriu a garagem (que passou a alugar para vizinhos) e ampliou a churrasqueira. Ele passou a dormir na suíte principal, assumiu as despesas de água, luz, gás e telefone, e apresentou-se, perante a comunidade, como “o novo proprietário do imóvel”. Doze anos após o falecimento de Lena, seu filho Adauto decide retomar o imóvel, mas Jonas se recusa a devolvê-lo. A partir da hipótese narrada, assinale a afirmativa correta.

Alternativas

  1. A.
    Jonas não pode usucapir o bem, eis que é possuidor de má-fé.
  2. B.
    Adauto não tem direito à ação possessória, eis que o imóvel estava abandonado.
  3. C.
    Jonas não pode ser considerado possuidor, eis que é o caseiro do imóvel.
  4. D.
    Na hipótese indicada, a má-fé de Jonas não é um empecilho à usucapião.

Gabarito: alternativa correta destacada.

Comentario

A alternativa correta é a D. Jonas, inicialmente detentor, sofreu a interversão da posse ao passar a agir como dono após o fim do contrato. Como ele estabeleceu moradia habitual e realizou obras no local por 12 anos, preenche os requisitos da usucapião extraordinária com prazo reduzido. Nessa modalidade, a lei dispensa a comprovação de justo título e de boa-fé, tornando a má-fé irrelevante para a aquisição da propriedade. As demais alternativas estão incorretas porque ignoram a mudança da natureza da posse de Jonas e os requisitos específicos da usucapião extraordinária.

Base legal

A fundamentação encontra-se no Código Civil, especificamente no instituto da usucapião extraordinária. O art. 1.238, parágrafo único, estabelece que o prazo para a usucapião extraordinária é reduzido para 10 anos se o possuidor houver estabelecido no imóvel a sua moradia habitual, ou nele realizado obras ou serviços de caráter produtivo. Essa modalidade de usucapião independe de justo título e de boa-fé, conforme expressa previsão legal. Além disso, o Enunciado 237 da III Jornada de Direito Civil reconhece a possibilidade de modificação do caráter da posse (interversão da posse), permitindo que o detentor passe a ser possuidor.