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Questão comentada sobre Delegação do poder de polícia a empresa pública prestadora de serviço público

Enunciado, alternativas e comentario aberto para indexacao, revisao e conexao com aulas e materiais relevantes.

FGV2026ENAM 2026.1 - Exame Nacional da Magistratura - Prova Tipo 1Magistratura

Enunciado

A empresa pública Águas Municipais S.A. é responsável pela prestação exclusiva de serviço público de abastecimento de água no Município Z. Nos termos da lei que autorizou a sua criação, a empresa possui competência para operar, manter, fiscalizar e realizar reparos e modificações nas canalizações e instalações do serviço público de abastecimento de água, podendo adotar medidas de caráter preventivo ou repressivo. Durante as suas atividades, identificou ligações clandestinas em sua rede de distribuição, depois que um vazamento causado por um cano irregular resultou no desmoronamento de parte da via pública. A equipe técnica da empresa constatou que o desvio ilegal abastecia imóveis da região e, para alcançar ruas mais altas, os responsáveis instalaram uma bomba de sucção conectada ao encanamento clandestino. Os funcionários da empresa pública desfizeram as ligações irregulares e cessaram a situação ilícita. Após a operação, moradores afetados ajuizaram demanda judicial, sustentando que a empresa pública, por ser uma pessoa jurídica de direito privado, não poderia exercer o poder de polícia. Alegaram, ainda, que a eliminação compulsória das ligações clandestinas caracterizaria uma sanção administrativa, atividade indelegável à Administração Indireta. Sobre o problema da delegação do poder de polícia, considerando o enunciado e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), assinale a afirmativa correta.

Alternativas

  1. A.
    A empresa pública Águas Municipais S.A. não poderia desfazer as ligações clandestinas, pois o poder de polícia não é delegável a entidades privadas, uma vez que o exercício de funções de autoridade por particulares comprometeria o princípio da igualdade.
  2. B.
    A empresa pública Águas Municipais S.A. poderia exercer atos de fiscalização e consentimento, mas não poderia desfazer as ligações clandestinas, pois a ordem e a sanção de polícia são indelegáveis, independentemente de a entidade pertencer à Administração Pública Indireta. O desfazimento compulsório somente poderia ser realizado por agentes da Administração Direta do Município Z.
  3. C.
    Como empresa pública prestadora de serviço público, a Águas Municipais S.A. poderia exercer todas as fases do ciclo do poder de polícia, inclusive a aplicação de sanções e medidas coercitivas, mesmo sem a previsão legal específica. Assim, a eliminação da ligação clandestina seria legítima, mesmo que não houvesse norma expressa autorizando a empresa a atuar dessa maneira.
  4. D.
    A empresa pública Águas Municipais S.A. somente poderia realizar a fiscalização das ligações clandestinas, sem atuar no desfazimento, pois a delegação do poder de polícia exige três requisitos cumulativos: previsão legal específica, restrição à atividade de fiscalização e delegação exclusivamente a entidades da Administração Pública Indireta. Por envolver medida coercitiva, o desfazimento da ligação clandestina caberia exclusivamente à Administração Pública Direta do Município X.
  5. E.
    O desligamento da ligação clandestina é uma medida válida, porque se trata de hipótese de delegação do exercício do poder de polícia admitida pelo STF. Isso porque se trata de uma empresa pública integrante da Administração Pública Indireta que, com base na lei autorizativa, presta exclusivamente serviço público de atuação própria do Estado e em regime não concorrencial. N OÇÕES G ERAIS DE D IREITO E F ORMAÇÃO H UMANÍSTICA

Gabarito: alternativa correta destacada.

Comentario

Correta: E. O STF admite a delegação legal do exercício do poder de polícia a pessoa jurídica de direito privado integrante da Administração Pública Indireta, desde que preste exclusivamente serviço público próprio do Estado e em regime não concorrencial, como ocorre com a empresa pública municipal de abastecimento de água. O desfazimento da ligação clandestina configura medida administrativa necessária à cessação da irregularidade e à proteção do serviço público, amparada pela lei autorizativa.

Por que as demais estão erradas:

A) Está errada porque o STF não veda de forma absoluta a delegação do poder de polícia a entidades administrativas de direito privado; a vedação se dirige, em regra, à delegação a particulares estranhos à Administração.

B) Está errada ao afirmar que ordem e sanção seriam sempre indelegáveis à Administração Indireta de direito privado; a jurisprudência do STF admite a delegação, por lei, nas condições fixadas no Tema 532.

C) Está errada porque a delegação do poder de polícia exige previsão legal específica; não basta a condição de empresa pública prestadora de serviço público.

D) Está errada porque restringe indevidamente a delegação apenas à fiscalização; conforme o STF, a delegação pode alcançar o exercício do poder de polícia quando atendidos os requisitos constitucionais e legais, não sendo exclusiva da Administração Direta.

Base legal

STF, RE 633.782/MG, Tema 532 da repercussão geral: é constitucional a delegação do poder de polícia, por meio de lei, a pessoas jurídicas de direito privado integrantes da Administração Pública Indireta, de capital social majoritariamente público, que prestem exclusivamente serviço público de atuação própria do Estado e em regime não concorrencial. Fundamento também relacionado ao art. 37, caput, da Constituição Federal, especialmente legalidade, eficiência e supremacia do interesse público.