Enunciado
Em auditoria realizada pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), constatou - se sobrepreço e medições fictícias em contratos de urbanização. O TCE aplicou multa e determinou ressarcimento ao erário pelos responsáveis. No âmbito interno da Administração, a Controladoria instaurou Processo Administrativo Disciplinar (PAD), que resultou em demissão de um engenheiro e suspensão de outro, com base em infrações disciplinares e violação a deveres funcionai s. Com base nos mesmos fatos, o Ministério Público propôs ação de improbidade administrativa, requerendo ressarcimento ao erário, aplicação de multa civil, perda da função e suspensão dos direitos políticos. Em paralelo, foi ajuizada ação penal por pecula to e fraude à licitação. Na esfera criminal, o prefeito foi absolvido por negativa de autoria – testemunhas e perícia indicaram que não participou das medições –, enquanto os engenheiros foram absolvidos por insuficiência probatória, em razão das lacunas n os laudos e contradições nos depoimentos. Na ação de improbidade, as defesas alegaram: (i) ocorrência de bis in idem, sob o argumento de que já houve sanções aplicadas pelo TCE e pelo PAD; e (ii) existência de coisa julgada penal, para impedir o prosseguimento da ação civil. O juízo deve decidir se as sanções aplicadas nas esferas de contas e disciplinar obstam a aplicação de novas sanções por improbidade e se as absolvições na esfera penal produzem efeitos vinculantes na esfera cível. Considerando a Lei nº 8.429/1992 (com as alterações da Lei nº 14.230/2021), o art. 935 do Código Civil e a dogmática do processo sancionatório, assinale a afirmativa correta.
Alternativas
- A.As punições aplicadas pelo TCE e pelo PAD tornam desnecessária e vedada a ação de improbidade administrativa, pois a Constituição adotaria unicidade sancionatória; a coexistência de sanções por um mesmo fato violaria o devido processo legal material e configuraria bis in idem sempre qu e houvesse dupla resposta estatal.
- B.A sentença penal absolutória, qualquer que seja o fundamento – inclusive por insuficiência de provas –, tem eficácia vinculante plena nas demais esferas, impedindo a responsabilização civil ou por improbidade e invali dando decisões do TCE e do PAD que concluam em sentido diverso sobre autoria e materialidade.
- C.A responsabilização civil por improbidade administrativa, pressupõe condenação penal transitada em julgado pelos mesmos fatos; sem o juízo criminal condenatór io, o processo de improbidade restaria suspenso ou extinto, dada a primazia lógica da jurisdição penal sobre as demais.
- D.As sanções aplicadas pelo TCE e pelo PAD impedem novas sanções por improbidade quando recaem sobre o mesmo fato, independentemente d o fundamento normativo; por outro lado, a absolvição penal por insuficiência de provas vincula as esferas civil e administrativa, já que pacificaria a inexistência de dolo ou culpa dos agentes.
- E.As instâncias são independentes, porém comunicantes: nem o TCE nem o PAD bloqueiam a responsabilização por improbidade, desde que se evite bis in idem material; a absolvição penal por inexistência do fato ou negativa de autoria projeta - se sobre as demais esferas, ao passo que a absolvição por insuficiência probat ória não impede, por si só, a responsabilização civil ou por improbidade, exigindo - se, na Lei de Improbidade Administrativa verificação autônoma de seus pressupostos.
Gabarito: alternativa correta destacada.
Comentario
Por que as demais estão erradas:
A) A alternativa A está incorreta pois o ordenamento jurídico brasileiro adota a independência de instâncias, permitindo a coexistência de sanções civis, administrativas e penais pelo mesmo fato, inexistindo unicidade sancionatória absoluta.
B) A alternativa B está incorreta porque a absolvição penal por insuficiência de provas (art. 386, VII, do CPP) não possui eficácia vinculante nas esferas civil e administrativa, ao contrário da absolvição por inexistência do fato ou negativa de autoria.
C) A alternativa C está incorreta porque a ação de improbidade administrativa não pressupõe condenação penal transitada em julgado, correndo as instâncias de forma autônoma e independente.
D) A alternativa D está incorreta porque as sanções do TCE e do PAD não impedem a aplicação de sanções por improbidade, e a absolvição penal por falta de provas não vincula o juízo cível ou administrativo.