Questoes comentadas/Direito Penal

Questao comentada gratuita

Questão comentada sobre Crimes contra a vida

Enunciado, alternativas e comentario aberto para indexacao, revisao e conexao com aulas e materiais relevantes.

FGV2024XXIX Exame de Ordem Unificado

Enunciado

Sandra, mãe de Enrico, de 4 anos de idade, fruto de relacionamento anterior, namorava Fábio. Após conturbado término do relacionamento, cujas discussões tinham como principal motivo a criança e a relação de Sandra com o ex-companheiro, Fábio comparece à residência de Sandra, enquanto esta trabalhava, para buscar seus pertences. Na ocasião, ele encontrou Enrico e uma irmã de Sandra, que cuidava da criança. Com raiva pelo término da relação, Fábio, aproveitando-se da distração da tia, conversa com a criança sobre como seria legal voar do 8º andar apenas com uma pequena toalha funcionando como paraquedas. Diante do incentivo de Fábio, Enrico pula da varanda do apartamento com a toalha e vem a sofrer lesões corporais de natureza grave, já que cai em cima de uma árvore. Descobertos os fatos, a família de Fábio procura advogado para esclarecimentos sobre as consequências jurídicas do ato. Considerando as informações narradas, sob o ponto de vista técnico, deverá o advogado esclarecer que a conduta de Fábio configura

Alternativas

  1. A.
    conduta atípica, já que não houve resultado de morte a partir da instigação ao suicídio.
  2. B.
    crime de instigação ao suicídio consumado, com pena inferior àquela prevista para quando há efetiva morte.
  3. C.
    crime de instigação ao suicídio na modalidade tentada.
  4. D.
    crime de homicídio na modalidade tentada.

Gabarito: alternativa correta destacada.

Comentario

Gabarito: Alternativa D

A conduta de Fábio configura o crime de homicídio na modalidade tentada, agindo ele como autor mediato.

Para a configuração do crime de induzimento, instigação ou auxílio a suicídio (art. 122 do CP), é estritamente necessário que a vítima tenha capacidade de discernimento para compreender o ato de tirar a própria vida. Quando a vítima é menor de 14 anos ou não tem o necessário discernimento (como no caso de Enrico, uma criança de apenas 4 anos), a lei penal determina que o agente responda pelo crime de homicídio (art. 121 do CP), conforme expressa previsão do art. 122, § 6º, do Código Penal.

Nesse cenário, ocorre a chamada autoria mediata. Fábio utilizou a criança, que atua sem dolo ou culpa e sem compreender a letalidade do que faz, como um mero instrumento inocente para a prática do crime.

Como a criança foi instigada a pular do 8º andar, evidencia-se o animus necandi (dolo de matar) de Fábio. O resultado morte apenas não ocorreu por circunstâncias alheias à vontade do agente (a criança caiu em cima de uma árvore e sobreviveu com lesões graves), restando perfeitamente configurada a tentativa de homicídio (art. 14, II, do CP).

Análise das alternativas incorretas:
  • Alternativa A: Incorreta. A conduta não é atípica. O fato de não ter ocorrido a morte não afasta a tipicidade, mas sim caracteriza a modalidade tentada de um crime contra a vida (homicídio tentado).
  • Alternativa B: Incorreta. Não se trata de instigação ao suicídio, pois a vítima tem apenas 4 anos. A presunção absoluta de vulnerabilidade e a ausência de discernimento transmudam a tipificação para homicídio.
  • Alternativa C: Incorreta. Pelo mesmo motivo da alternativa anterior, a idade e a falta de discernimento da vítima afastam a tipificação do art. 122 (instigação ao suicídio), atraindo a incidência do crime de homicídio na modalidade tentada.

Base legal

Fundamento: Art. 122, § 6º, e Art. 121 c/c Art. 14, II, do Código Penal

Segundo o art. 122, § 6º, do Código Penal, se o crime de induzimento, instigação ou auxílio a suicídio é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem não tem o necessário discernimento para a prática do ato, o agente responde pelo crime de homicídio, nos termos do art. 121 do mesmo Código. Aplicando-se a regra da tentativa (art. 14, II, do CP), como o agente agiu com dolo de matar ao induzir uma criança de 4 anos a pular do 8º andar (utilizando-a como instrumento do crime via autoria mediata) e a morte não ocorreu por circunstâncias alheias à sua vontade, ele responde por homicídio tentado.