Enunciado
Promotor de Justiça com atribuição em tutela coletiva de determinada comarca mato - grossense identificou as três situações listadas a seguir, e passou a avaliar o enquadra mento jurídico adequado de cada uma delas. I. Moradores de bairro afetado por lançamento irregular de efluentes industriais em córrego local sofreram danos à saúde em razão da contaminação da água utilizada para consumo doméstico. Os moradores afetados são individualizáveis e os danos sofridos por cada um são passíveis de apuração individualizada, embora decorram de origem comum — a mesma conduta ilícita da empresa poluidora. II. Empresa de telecomunicações passou a cobrar tarifa não prevista contratualment e de todos os seus usuários no Estado de Mato Grosso, causando prejuízo financeiro idêntico a cada consumidor individualmente, mas cujo montante global, se reparado coletivamente, seria revertido ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos. III. Prefeito de mun icípio mato - grossense celebrou contrato administrativo superfaturado para aquisição de merenda escolar, desviando verbas do FUNDEB em prejuízo à qualidade da alimentação oferecida aos alunos da rede pública municipal. O dano causado afeta a qualidade do en sino público como um todo, sendo impossível identificar individualmente cada criança prejudicada ou quantificar o prejuízo sofrido por cada uma delas. Com base no microssistema de tutela coletiva e no regime jurídico da Lei nº 8.429/1992 (com as alterações promovidas pela Lei nº 14.230/2021), analise as afirmativas a seguir, assinalando (V) para verdadeira e (F) para falsa. ( ) Em I, os danos sofridos pelos moradores configuram direitos individuais homogêneos, caracterizados pela origem comum da lesão e pela possibilidade de individualização dos titulares e de seus respectivos prejuízos, sendo o Ministério Público legitimado para a defesa coletiva desses interesses em razão da relevância social do dano e da hipossuficiência das vítimas. ( ) Em I I, o prejuízo financeiro idêntico causado a cada consumidor pela cobrança indevida da tarifa configura direito difuso, pois o dano atinge número indeterminado de pessoas ligadas entre si pela mesma relação jurídica contratual com a empresa de telecomunicaç ões, sendo o produto da condenação destinado necessariamente ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos. ( ) Em III, o desvio de verbas do FUNDEB por meio de contrato superfaturado configura, simultaneamente, ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário, nos termos do art. 10 da Lei nº 8.429/1992, e violação ao direito difuso à educação de qualidade, sendo o Ministério Público o único legitimado para a propositura da ação de improbidade administrativa em face do Prefeito, vedada a ação por qual quer outra parte após as alterações promovidas pela Lei nº 14.230/2021. As afirmativas são, respectivamente,
Alternativas
- A.V — V — V.
- B.V — F — V.
- C.F — V — F.
- D.V — F — F.
- E.F — F — V.
Gabarito: alternativa correta destacada.
Comentario
- A primeira afirmativa é verdadeira (V) porque os danos à saúde decorrentes de poluição ambiental, com vítimas identificáveis e prejuízos individualizáveis de origem comum, caracterizam direitos individuais homogêneos (art. 81, parágrafo único, III, do CDC), cuja defesa coletiva pelo Ministério Público é legítima quando presente a relevância social (Tema 60/STF).
- A segunda afirmativa é falsa (F) porque a cobrança de tarifa indevida de usuários de telecomunicações (grupo determinável de pessoas ligadas por relação jurídica contratual) configura direitos coletivos em sentido estrito ou individuais homogêneos, e não direitos difusos (que exigem pessoas indetermináveis e ligadas por circunstâncias de fato).
- A terceira afirmativa é falsa (F) porque, embora o desvio configure improbidade e dano difuso, o STF, no julgamento das ADIs 7042 e 7043, declarou inconstitucional a exclusividade do Ministério Público para a propositura da ação de improbidade administrativa, restabelecendo a legitimidade ativa concorrente das pessoas jurídicas interessadas.
Por que as demais estão erradas:
- A alternativa A está incorreta pois classifica erroneamente a segunda e a terceira afirmativas como verdadeiras.
- A alternativa B está incorreta pois considera a terceira afirmativa verdadeira, ignorando o entendimento do STF sobre a legitimidade concorrente na improbidade.
- A alternativa C está incorreta pois inverte o julgamento de todas as afirmativas, considerando a primeira falsa e a segunda verdadeira.
- A alternativa E está incorreta pois aponta a primeira afirmativa como falsa e a terceira como verdadeira.